Meus versos,
Meus unguentos...



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Catavento


foto Diego Zanotti
 A tarde escarlate
Seda azul
Estrela da sorte
Esmalte da noite no céu de junho
Redemunho de versos
no canteiro das flores
As cores se abrindo
no catavento do tempo
O tempo girando
no caderno do dia
O dia comendo páginas
no cataclismo das horas
As horas morrendo na boca da noite
A noite caindo no vértice da tarde
tudo parte sem dó
meu coração sem rumo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rua

Foto: Diego Zanotti














A rua é trôpega sob meu sapato sem calço
Tropeço cambaleio e caio
A calçada cinza se estende
Extenso rio de pedra
Cheia de vida sem esperança

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Coração Dim Dom

Um sonho
uma festa
velas e candelabros numa noite de novembro
candeeiro aceso meu coração dim-dom
piano suave soturno embalando taças
da mesa à boca
da boca à mesa
da mesa ao universo perdido em idéias
o vinho girando a cabeça embriagada de sua presença
o cheiro de pele lavada a sabonete
a lua doida redonda
belas luas nuas andando pela casa
o olhar bandido atravessando a sala triste
as portas escancaradas
e a vidraça do meu peito estilhaçada
o abrigo incerto das mãos de unhas retas
pés impecáveis a pisar o tapete e o meu coração dim-dom
num bordão dizendo vem
e eu em falsete gritando não.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Madrugada

Quem foi
que fez a lua tão cheia
e no silêncio pôs fogo na barra do dia?

Mistérios
galos despertam quintais
além dos muros e depois
acordam corações
despertam em mim muito mais
do que simples canções

Vela a estrela insone
alta no meu pensamento
e a madrugada quieta se faz
em tramas de sombra e luz

Quem foi
que acendeu os ipês
que fez da vida o que fez
e de mim o que quis?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Lamento

Morena má
Morena cigana
Não faz isso comigo morena
Meu coração é de pena
Pequeno de dar dó
Não é de palha nem de paina
É pequeno morena
E não cabe ingratidão
Morena má não me iluda
Não revele essa boca ponguda
Meu coração não é de pedra
Nem é de pó
É de dar pena morena
É de dar dó.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Destino

Eu vi o Bem e o Mal se beijando numa noite de eclipse total. Não traziam cartas na manga, nem rosa branca na mão. Nem punhal. O Bem não quis matar o mal pela raiz. O Mal nem se importava, se no final, o Bem fosse feliz. O Bem com suas poesias. O Mal com suas prosas. Atracaram-se impávidos.

O Bem com suas luzes. O Mal com seus fantasmas. O Bem não aspirava em ser rei, nem o mal cogitava em governar. Entregaram-se. Como dois amantes naquela noite insana, trocaram olhares e carícias na ânsia de se completar. Riram e falaram besteira até o dia clarear.

De manhãzinha, embevecidos de amor, encontraram com a inveja que vinha a cavalo da bebedeira. E também com uma virtude que saía para rezar. Ouviram risos, cochichos, grito de protesto: _isso é um caso infame, impossível de aceitar.

Então, aturdidos recolheram suas roupas. Fugiram nus. Envergonhados em meio a neblina daquela manhã fria. Nunca mais conversaram. E tudo voltou como era sempre, como era certo. Cada qual no seu lugar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Passageira

dançando no vento - Martha Barros

(essa já virou música, fico mais tranquilo)

Ah, vida ligeira!
rola no tempo,
água sem prumo,
cachoeira.

Ah, vida ligeira!
vai como o vento,
água sem rumo,
rio sem beira.

Zaz de copo d'agua,
triz de brincadeira,
a vida passa correndo,
êta vida passageira.

Po isso quero mais mimo,
quero asas e arrimo,
quero a polpa e o sumo
se não sei do meu destino.

Quero verso e reverso,
sextas, sábados, domingos.
Um amor só pra consumo,
dos dias longos e lindos.

Pois cansada a vida para,
rio vira represa,
onde navegam lembranças,
repousam esperanças,
e naufragam-se certezas.